#2

Deixa-te levar, a menos que estejas a fugir à polícia. «Fugir à polícia», uma das poucas expressões que não sofreram remodelações ao longo dos tempos. Ninguém é perfeito – disse-me um Deus não catalogado. Os livros de História são como que um Benjamim Button: nascem velhos. Deixemos, por agora, as analogias, procuremos, sim, ligações impossíveis, aquilo que permanece sem ligação. E isto: as pessoas com mais valências, ao contrário dos átomos, são as últimas a sair: a conhecer o tão certo despedimento. E o que é morte senão o derradeiro e último despedimento? E um rol de finais possíveis: somente um pode ser escolhido. Por mais arguto que seja o escriba, apenas poderá facultar, ao texto, um mísero e único final. Mas, atente-se, o que é hoje produto, amanhã pode ser reagente: vivemos, parece-me, num eterno equilíbrio. Esta é a química daquilo a que chamamos acaso. Até que caímos e mandamos foder todas as leis da Física. De facto, a gravidade é uma gigante e invisível casca de banana. E caímos novamente.

Anúncios
Standard

#1

Nem sempre nos podemos dar ao luxo de começar um texto assim, cheiinho de utilidade pouco convincente, mas quando o ensejo nos abraça há que aproveitar a oportunidade e a redundância. Amputemos, pois, este fraco começo e debrucemo-nos sobre os beijos e flores comummente usados na poesia e na primavera. O desabrochar como elo entre a badalhoquice e a poesia: eis uma frase. A poesia é, por assim dizer, uma primavera que dura todo ano. Não há poetas ricos, disse um anónimo que mora no andar de cima deste texto. A função da poesia é questionável. Como todas as questões, claro está. O Fernando Pessoa sem se aperceber – também, verdade seja dita, é muito difícil nos apercebermos das coisas quando enfrentamos a última horizontalidade –, tornou-se a muleta da primeira queca. E isto: um bom final.

Standard